sexta-feira, 25 de junho de 2021

Arthur Rimbaud



Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (Charleville, 20 de outubro de 1854 — Marselha, 10 de novembro de 1891) foi um poeta francês. Produziu suas obras mais famosas quando ainda era adolescente sendo descrito por Paul James, à época, como o poeta de língua francesa que soube desde a qualidade dos sentidos manifestar sua poesia e predileção pela linguagem humana. Como parte do movimento decadente, Rimbaud influenciou a literatura, a música e a arte modernas. Era conhecido por sua fama de libertino e por uma alma inquieta, viajando de forma intensiva por três continentes antes de morrer de um câncer aos 37 anos de idade.


1. Vida

a) Infância e adolescência (1854-1871)

Arthur Rimbaud nasceu no seio da classe média provincial de Charleville (hoje parte de Charleville-Mézières) em Ardenas, departamento no nordeste da França. Ele foi o segundo filho de Vitalie Rimbaud (Cuif, antes de se casar) e o Capitão Frédéric, que lutou na conquista da Argélia e foi premiado com a Légion d'honneur. Logo depois que o casal teve a quinta criança (Frédéric, Arthur, Victorine [que morreu um mês depois do nascimento], Vitalie e Isabelle), o pai deixou a família. Crescendo separadamente de seu pai, pelos escritos de Rimbaud é evidente que nunca se sentiu amado por sua mãe. Quando garoto era impaciente, inquieto, porém um estudante brilhante. Pela idade de quinze anos ganhou muitos prêmios e compôs versos originais e diálogos em Latim. Em 1870 seu professor Georges Izambard se tornou o mentor literário de Rimbaud e seus versos em francês começaram a melhorar rapidamente.
Rimbaud fugia frequentemente de casa e pode ter se unido por pouco tempo à Comuna de Paris de 1871, que foi retratada em seu poema L'orgie parisienne (“A Orgia Parisiense” ou “Paris Repovoada”); pode ter sofrido violências sexuais por soldados bêbados da comuna (e seu poema Le cœur supplicié (“O Coração Torturado”) parece sugerir), tal fato é pouco provável já que Rimbaud continuou a apoiar os Comunistas escrevendo poemas que simpatizavam com suas reivindicações. Nesta época ele se tornou um anarquista, começou a beber e se divertia chocando a burguesia local com suas vestes rotas e o cabelo longo. Neste mesmo tempo escreveu para Izambard e Paul Demeny sobre seu método para atingir a transcendência poética ou o poder visionário através do “longo, imenso e sensato desregramento de todos os sentidos.” (Les lettres du Voyant [As Cartas do Vidente]).

b) A vida com Paul Verlaine (1871-1875)

Ele retornou a Paris em setembro de 1871 por um convite do eminente poeta influenciador do simbolismo Paul Verlaine (depois que Rimbaud lhe mandou uma carta contendo vários exemplos do seu trabalho) e residiu brevemente em sua casa. Este, que era casado, apaixonou-se prontamente pelo adolescente calado, de olhos azuis e cabelo castanho-claro comprido. Enquanto é provável que Verlaine já havia tido um caso homossexual, ainda permanece incerto se o relacionamento com Verlaine foi o primeiro de Rimbaud. Os amantes levaram uma vida ociosa, regada a absinto e haxixe. Escandalizaram o círculo literário parisiense por causa do comportamento ultrajante de Rimbaud, o arquetípico enfant terrible, que durante este período continuou a escrever notáveis versos visionários.
O tempestuoso caso amoroso entre ambos levou-os a Londres em setembro de 1872, Verlaine abandonando sua esposa e um filho pequeno (ambos sofriam de abusos durante as iras alcoólicas de Verlaine). Os amantes viveram em uma pobreza considerável, em Bloomsbury e em Camden Town, desprezando uma vida de ensino e uma pensão da mãe de Verlaine. Rimbaud passou seus dias na sala de leitura do Museu Britânico onde "calor, luz, penas e tinta eram de graça".
Em junho de 1873, Verlaine voltou para Paris, tendo enfrentado dificuldade para suportar a ausência de Rimbaud. Em oito de julho, ele mandou um telegrama ao jovem poeta, lhe dando instruções para ir ao Hotel Liège em Bruxelas; Rimbaud concordou imediatamente. O encontro em Bruxelas foi péssimo; um reclamando do outro e Verlaine bebendo constantemente. Na manhã de dez de julho, Verlaine comprou um revólver e munição; à tarde, numa "fúria de bêbado", disparou dois tiros em Rimbaud, um deles ferindo o poeta de dezoito anos no pulso.
Rimbaud considerou o ferimento superficial e a princípio não acusou Verlaine. Após isto, ele e sua mãe acompanharam Rimbaud a uma estação de trem em Bruxelas, onde Verlaine se comportou como um louco. Isto fez Rimbaud sentir medo do poeta, que então se virou e foi embora. Em suas palavras "então eu [Rimbaud] implorei para um policial o prender [Verlaine]". Ele foi detido por tentativa de homicídio e submetido a um exame médico humilhante. Também foi interrogado sobre sua correspondência íntima com seu amante e sobre as acusações de sua mulher sobre a natureza de sua relação com Rimbaud, que eventualmente retirou suas queixas, porém o juiz condenou Verlaine a dois anos de prisão.
Rimbaud retornou a sua casa em Charleville e completou sua prosa Une saison en enfer (Uma Estação no Inferno), considerada pioneira nas instâncias do simbolismo moderno e escreveu uma descrição sobre sua vida de drôle de ménage (farsa doméstica) com Verlaine, seu frère pitoyable (lamentável irmão) e a vierge folle (virgem louca) por quem ele era um l'époux infernal (noivo infernal). Em 1874 retornou para Londres com o poeta Germain Nouveau e suas arrasantes Illuminações.

c) Viagens (1875-1891)

Rimbaud e Verlaine se encontraram pela última vez em março de 1875, em Stuttgart, Alemanha, depois que o último saiu da prisão e se converteu ao catolicismo. Rimbaud acabou por desistir de escrever e decidiu-se por uma vida fixa, de trabalho. Alguns especulam que ele ainda possuía vivo o seu antigo estado selvagem, enquanto outros sugerem que ele buscou ficar rico e independente para algum dia poder viver como um poeta despreocupado; de qualquer forma, continuou a viajar intensivamente pela Europa, principalmente a pé.
Em maio de 1876, ele se alistou como soldado no Exército Colonial Holandês para poder viajar livremente para Java (na Indonésia) onde, após quatro meses, desertou, retornando para a França por navio. Na residência oficial do major de Salatiga, uma pequena cidade a 46 km do sul de Samarão, capital da Província Central de Java, existe uma placa de mármore declarando que Rimbaud um dia esteve na cidade.


Em dezembro de 1878, Rimbaud chegou a Larnaca, Chipre, onde trabalhou como capataz na pedreira de uma empresa de construção. Em maio do ano seguinte, teve que deixar Chipre por causa de uma febre, que mais tarde, na França, foi diagnosticada como febre tifóide.
Em 1880, Rimbaud finalmente adaptou-se em Aden como um empregado principal na agência de Bardey. Ele teve várias mulheres nativas como amantes e por algum tempo viveu com uma amante da Etiópia.[carece de fontes] Em 1884, ele deixou o trabalho na Bardey para se tornar um mercador por conta própria em Harar, Etiópia. Notavelmente, as vendas de Rimbaud incluíam café e armas. Nesse período, fez uma grande amizade com o governador de Harar, Ras Makonnen, pai do futuro imperador da Etiópia, Haile Selassie.

d) Morte

Rimbaud desenvolveu sinovite em seu joelho direito e, subsequentemente, um carcinoma no mesmo joelho. Seu estado de saúde o forçou a partir para a França em 9 de maio de 1891, onde foi admitido num hospital em Marselha, e ali teve sua perna amputada no dia 27 de maio. No pós-operatório foi descoberto que Rimbaud sofria de câncer. Após uma curta estada na casa de sua família, voltou a viajar para a África, mas a sua saúde piorou durante a viagem, sendo readmitido no mesmo hospital em Marselha. Lá, após algum tempo de sofrimento e eventuais visitas de sua irmã Isabelle, Rimbaud morreu a 10 de novembro de 1891, com apenas 37 anos, e seu corpo foi enterrado no jazigo da família na cidade de Charleville.


2. Repercussão

A poesia de Rimbaud, bem como sua vida, impressionou escritores, músicos e artistas do século XX. Pablo Picasso, Dylan Thomas, Allen Ginsberg, Vladimir Nabokov, Bob Dylan, Patti Smith, Giannina Braschi, Léo Ferré, Henry Miller, Van Morrison e Jim Morrison foram influenciados por sua poesia e por sua vida. A vida de Rimbaud foi retratada em vários filmes. No filme Una stagione all'inferno (Uma Temporada no Inferno), de 1970, do cineasta italiano Nelo Risi, o escritor francês é interpretado por Terence Stamp e Verlaine por Jean-Claude Brialy. Em 1995, a cineasta polonesa Agnieszka Holland dirigiu Eclipse Total de uma Paixão, no qual Leonardo DiCaprio interpreta Rimbaud e David Thewlis, Paul Verlaine.

a) Críticas

Rimbaud que partiu para traficar armas de fogo no norte da África de um lado e deu cor às vogais (revista em Alquimia do Verbo) por outro, tornou-se um tipo de referência para a poesia no século seguinte: servindo como argumento à tese que nascia sobre a impossibilidade de ser considerada a dissociação entre o poeta e sua poesia.
O norte-americano Henry Miller, um dos grandes admiradores da poesia simbolista de Rimbaud, diz, diante disso, que o tipo Rimbaud chegará a superar tipos clássicos de comportamento; como o introspectivo e inquieto jovem estampado pelo personagem Hamlet, de Shakespeare. "Acho que existem muitos Rimbauds neste mundo afora e que esse número aumentará com o passar dos anos. Também acho que o tipo Rimbaud vai eliminar, do mundo futuro, o tipo Hamlet e o tipo Fausto. Até que o velho mundo desapareça por completo, o indivíduo 'anormal' tende a ser cada vez mais a regra. O novo homem só se descobrirá quando terminar o conflito entre a coletividade e o indivíduo. Aí então veremos o tipo de homem em sua plenitude e esplendor".
Já Paulo Leminski escreveu no curtíssimo ensaio "Poeta Roqueiro" que "se vivesse hoje, Rimbaud seria músico de rock" e que Rimbaud "pasmou os contemporâneos com uma precocidade poética - (escrevendo) obras-primas entre os 15 e os 18 anos". Georges Duhamel vai pela mesma picada: "O que Mallarmé não parece ter adivinhado é que o 'Viajante notável' voltaria, que ia ficar, que não pararia de crescer, que sua influência se estenderia sobre todas as gerações e que aquele garoto seria no século novo não o mestre, e sim, melhor ainda, o mensageiro, o profeta de toda uma juventude febril, entusiasta, rebelde". A imagem mais conhecida de Rimbaud, esta mesma que ilustra o verbete, reforça a ideia de enfant terrible que se relaciona à sua personalidade.




3. Os 10 melhores poemas de Arthur Rimbaud

Luiz Antonio Ribeiro - Site Notaterapia
https://notaterapia.com.br/2020/04/07/os-10-melhores-poemas-de-arthur-rimbaud/

Arthur Rimbaud (1854-1891) foi um poeta francês que exerceu grande influência na poesia do século XX. … Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854-1891) nasceu em Charleville, França, no dia 20 de outubro de 1854. Filho de um capitão da infantaria e de uma camponesa teve uma educação rígida. Na adolescência, se rebela e começa a escrever poemas. O autor produziu suas obras mais famosas quando ainda era adolescente sendo descrito por Paul James, à época, como “um jovem Shakespeare”. Como parte do movimento decadente, Rimbaud influenciou a literatura, a música e a arte modernas.


Minha boêmia
(Fantasia)

Lá ia eu, de mãos nos bolsos descosidos;
Meu paletó também tornava-se ideal;
Sob o céu, Musa, eu fui teu súdito leal,
Puxa vida! a sonhar amores destemidos!

O meu único par de calças tinha furos.
– Pequeno Polegar do sonho ao meu redor
Rimas espalho. Albergo-me à Ursa Maior.
– Os meus astros no céu rangem frêmitos puros.

Sentado, eu os ouvia, à beira do caminho,
Nas noites de setembro, onde senti qual vinho
O orvalho a rorejar-me a fronte em comoção;

Onde, rimando em meio a imensidões fantásticas,
Eu tomava, qual lira, as botinas elásticas
E tangia um dos pés junto ao meu coração!


Romance

I

Não se pode ser sério aos dezessete anos.
– Um dia, dá-se adeus ao chope e à limonada,
À bulha dos cafés de lustres suburbanos!
– E vai-se sob a verde aléia de uma estrada.

O quente odor da tília a tarde quente invade!
Tão puro e doce é o ar, que a pálpebra se arqueja;
De vozes prenhe, o vento – ao pé vê-se a cidade, –
Tem perfumes de vinha e cheiros de cerveja…

II

– Eis que então se percebe uma pequena tira
De azul escuro, em meio à ramaria franca,
Picotada por uma estrela má, que expira
Em doce tremular, muito pequena e branca.

Noite estival! A idade! – A gente se inebria;
A seiva sobe em nós como um champanhe inquieto…
Divaga-se; e no lábio um beijo se anuncia,
A palpitar ali como um pequeno inseto…

III

O peito Robinsona em clima de romance,
Quando – na palidez da luz de um poste, vai
Passando uma gentil mocinha, mas no alcance
Do colarinho duro e assustador do pai…

E como está te achando imensamente alheio,
Fazendo estrepitar as pequenas botinas,
Ela se vira, alerta, em rápido meneio…
– Em teus lábios então soluçam cavatinas…

IV

Estás apaixonado. Até o mês de agosto.
Fisgado. – Ela com teus sonetos se diverte.
Os amigos se vão: és tipo de mau gosto.
– Um dia, a amada enfim se digna de escrever-te!…

Nesse dia, ah! meu Deus… – com teus ares ufanos,
Regressas aos cafés, ao chope, à limonada…
– Não se pode ser sério aos dezessete anos
Quando a tília perfuma as aléias da estrada.


A eternidade

Achada, é verdade?
Quem? A Eternidade.
É o mar que se evade
Com o sol à tarde.

Alma sentinela
Murmura teu rogo
De noite tão nula
E um dia de fogo.

A humanos sufrágios,
E impulsos comuns
Que então te avantajes
E voes segundo…

Pois que apenas delas,
Brasas de cetim,
O Dever se exala
Sem dizer-se: enfim.

Nada de esperança,
E nenhum oriétur.
Ciência em paciência,
Só o suplício é certo.

Achada, é verdade?
Quem? A Eternidade.
É o mar que se evade
Com o sol à tarde.





Manhã

Não tive eu uma vez uma juventude amável, heróica, fabulosa, para ser escrita em fôlhas de ouro, – sorte a valer! Por que crime, por que êrro, mereci a fraqueza atual? Vós que achais que animais dão soluços de dor, que doentes desesperam, que mortos tem pesadelos, tratai de narrar minha queda e meu sono. Quanto a mim, posso explicar-me tanto quanto o mendigo com os seus contínuos Pater e Ave Maria. Não sei mais falar!
Contudo, creio ter terminado hoje a narração de minha temporada no inferno. Era realmente o inferno: o antigo aquêle cujas portas o filho do homem abriu.
No mesmo deserto, à mesma noite, meus olhos cansados sempre despertam sob a estrela de prata, sempre, sem que se emocionem os Reis da vida, os três magos, o coração, a alma, o espírito. Quando iremos, além das praias e dos montes, saudar o nascimento do trabalho novo, a sabedoria nova, a fuga dos tiranos e dos demônios, o fim da superstição, adorar – os primeiros! – os primeiros! – o Natal sôbre a terra?
O canto dos céus, a marcha dos povos! Escravos, não amaldiçoemos a vida.
(tradução de Lêdo Ivo)


Canção da Mais Alta Torre

Inútil beleza
A tudo rendida,
Por delicadeza
Perdi minha vida.
Ah! que venha o instante
Que as almas encante.

Eu me digo: cessa,
Que ninguém te veja:
E sem a promessa
Do que quer que seja.
Não te impeça nada,
Excelsa morada.

De tanta paciência
Para sempre esqueço:
Temor e dolência
Aos céus ofereço,
E a sede sem peias
Me escurece as veias.

Assim esquecidas
Vão-se as Primaveras
Plenas e floridas
De incenso e de heras
Sob as notas foscas
De cem feias moscas

Ah! Mil viuvezas
Da alma que chora
E só tem tristezas
De Nossa Senhora!
Alguém oraria
À Virgem Maria?

Inútil beleza
A tudo rendida,
Por delicadeza
Perdi minha vida.

Ah! que venha o instante
Que as almas encante!


Vênus Anadiômene

Como de um verde túmulo em latão o vulto
De uma mulher, cabelos brunos empastados,
De uma velha banheira emerge, lento e estulto,
Com déficits bastante mal dissimulados;

Do colo graxo e gris saltam as omoplatas
Amplas, o dorso curto que entra e sai no ar;
Sob a pele a gordura cai em folhas chatas,
E o redondo dos rins como a querer voar…

O dorso é avermelhado e em tudo há um sabor
Estranhamente horrível; notam-se, a rigor,
Particularidades que demandam lupa…

Nos rins dois nomes só gravados: CLARA VENUS;
– E todo o corpo move e estende a ampla garupa
Bela horrorosamente, uma úlcera no ânus.
27 de julho de 1870


Vogais

A negro, E branco, I rubro, U verde, O azul, vogais,
Ainda desvendarei seus mistérios latentes:
A, velado voar de moscas reluzentes
Que zumbem ao redor dos acres lodaçais;

E, nívea candidez de tendas areais,
Lanças de gelo, reis brancos, flores trementes;
I, escarro carmim, rubis a rir nos dentes
Da ira ou da ilusão em tristes bacanais;

U, curvas, vibrações verdes dos oceanos,
Paz de verduras, pas dos pastos, paz dos anos
Que as rugas vão urdindo entre brumas e escolhos;

O, supremo Clamor cheio de estranhos versos,
Silêncio assombrados de anjos e universos;
– Ó! Ômega, o sol violeta dos Seus olhos!


Os Corvos

Senhor, quando os campos são frios
E nos povoados desnudos
Os longos ângelus são mudos…
Sobre os arvoredos vazios
Fazei descer dos céus preciosos
Os caros corvos deliciosos.

Hoste estranha de gritos secos
Ventos frios varrem nossos ninhos!
Vós, ao longo dos rios maninhos,
Sobre os calvários e seus becos,
Sobre as fossas, sobre os canais,
Dispersai-vos e ali restais.

Aos milhares, nos campos ermos,
Onde há mortos recém-sepultos,
Girai, no inverno, vossos vultos
Para cada um de nós vos vermos,
Sede a consciência que nos leva,
Ó funerais aves das trevas!

Mas, anjos do ar, no alto da fronde,
Mastros sem fim que os céus encantam,
Deixai os pássaros que cantam
Aos que no breu do bosque esconde,
Lá, onde o escuro é mais escuro,
Uma derrota sem futuro.

A Estrela Chorou Rosa
A estrela chorou rosa ao céu de tua orelha.
O infinito rolou branco, da nuca aos rins.
O mar perolou ruivo em tua teta vermelha.
E o Homem sangrou negro o altar dos teus quadris.


No Cabaré Verde – Às Cindo da Tarde

Oito dias de estrada, as botas esfoladas
De tanto caminhar. Em Charleroi, desvio:
– Entro no Cabaré Verde: peço torradas
Na manteiga e presunto; que não seja frio.
Despreocupado estiro as pernas sobre a mesa
Verde e me esqueço a olhar os temas primitivos
Sobre a tapeçaria. – Adorável surpresa,
A garota de enormes tetas, olhos vivos,
– Essa, não há de ser um beijo que a afugente! –
Rindo, vem me trazer meu pedido numa
Bandeja multicor: pão com presunto quente,
Presunto rosa e branco aromado de um dente
De alho, e o chope bem gelado, boa espuma,
Que uma réstea de sol doura tardiamente.
Outubro de 1870


Fome

Meu gosto, agora se encerra
Em comer pedras e terra.
Só me alimento de ar,
de rochas, de carvão, de ferro.

Pastai o prado de feno,
Ó fomes minhas.
Chamai o gaio veneno
Das campainhas.

Comei o cascalho que seja
Das velhas pedras de igreja;
Seixos de antigos dilúvios,
Pão semeado em vales turvos.

Uiva o lobo na folhagem,
Cuspindo a bela plumagem
Das aves de seu repasto :
É assim que me desgasto.

As hortalicas, as frutas
Esperam só a colheita.
Mas o aranhão da hera
Não come senão violetas.

Que eu adormeca, que eu arda
Nas aras de Salomão.
Na ferrugem escorre a calda
E se mistura ao Cedrão.

Enfim, ó ventura, ó razão, afastei do céu o azul,
que é negro, e vivi, centelha de ouro, dessa
luz natureza. De alegria, adotava a expres-
são mais ridícula e desvairada possível :

Achada, é verdade ?!
Quem ? A eternidade.
É o mar que o sol
Invade

Observa, minh´alma
Eterna, o teu voto
Seja noite só,
Torre o dia em chama.

Que então te avantajes
A humanos sufrágios,
A impulsos comuns !
Tu voas como os…

– Esperanca ausente,
Nada de oriétur
Ciência paciência,
Só o suplício é certo.

O amanhã não vem,
Brasas de cetim.
Deves o ardor
Ao dever doar.

Achada, é verdade ?!
– Quem ? – A Eternidade.
É o amor que o sol
Invade.


Adormecido no Vale
Tradução: Ferreira Gullar

É um vão de verdura onde um riacho canta
A espalhar pelas ervas farrapos de prata
Como se delirasse, e o sol da montanha
Num espumar de raios seu clarão desata.

Jovem soldado, boca aberta, a testa nua,
Banhando a nuca em frescas águas azuis,
Dorme estendido e ali sobre a relva flutua,
Frágil, no leito verde onde chove luz.

Com os pés entre os lírios, sorri mansamente
Como sorri no sono um menino doente.
Embala-o, natureza, aquece-o, ele tem frio.

E já não sente o odor das flores, o macio
Da relva. Adormecido, a mão sobre o peito,
Tem dois furos vermelhos do lado direito.

Fontes:
https://escamandro.wordpress.com/tag/rimbaud/
https://www.escritas.org/pt/arthur-rimbaud
Poemas do livro “Poesia Completa”, de Arthur Rimbaud (tradução de Ivo Barroso), editora Topbooks.
http://www.algumapoesia.com.br/poesia/poesianet091.htm






domingo, 16 de maio de 2021

Os Miseráveis

Os Filmes




1. Sur la Barricade (1906)

Sur la Barricade 1906

L'Enfant sur la barricade é um filme mudo francês lançado em 1906.
Embora fosse uma obra da Gaumont e ela atribuísse a autoria a Étienne Arnaud, provavelmente por engano, o filme é dirigido por Alice Guy segundo a maioria das fontes. É a segunda vez que a diretora adapta Victor Hugo depois do filme La Esmeralda, lançado em 1905.
L'Enfant sur la barricade é considerada uma adaptação de Les Misérables, publicada em 1862, pelo menos através do personagem do menino que se inspiraria em Gavroche durante a revolta de junho de 1832. Mas o título e o conteúdo do filme são inspirados principalmente no poema de Victor Hugo, Sur une barricade, publicado na coleção L'Année terrible em 1872, que se refere à Comuna de Paris ocorrida um ano antes.

a) Sinopse

Em uma cozinha parisiense, um menino recebe a tarefa de sua mãe de buscar uma garrafa de leite na loja ao lado. Enquanto isso, as pessoas estão construindo uma barricada na rua, enquanto os policiais se aproximam e atiram neles. O menino aparece no meio do confronto e quase é executado ...

b) Ficha Técnica

    Título original The Child on the Barricade , On the Barricade or The Riot
    Diretora Alice Guy
    Produtora Gaumont
    País de produção França
    Formato Preto e Branco
    Duração 6 min
    Data de lançamento 1906 na França


c) Filme

L'enfant de la barricade - On the Barricade - Silent Short Film - 1906



2. Les Misérables (1935)


Les Misérables é um filme estadunidense de 1935, é a segunda adaptação para o cinema da obra de Victor Hugo.

a) Elenco

• Fredric March .... Jean Valjean
• Charles Laughton .... Inspetor Javert
• Cedric Hardwicke .... Bispo Bienvenu
• Rochelle Hudson .... Cosette
• Florence Eldridge .... Fantine
• John Beal .... Marius
• Frances Drake .... Eponine
• Ferdinand Gottschalk .... Thenardier
• Jane Kerr .... Madame Thenardier
• Marilyn Knowlden .... Cosette - criança
• Jessie Ralph .... Madame Magloire
• Mary Forbes .... Baptiseme
• Florence Roberts .... Toussaint
• Charles Haefeli .... Brevet
• John Carradine .... Enjolras
• J. P. McGowan (não-creditado)

b) Prêmios e indicações

• Recebeu 4 indicações para o Oscar, nas seguintes categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor Assistente, Melhor Edição e Melhor Fotografia.


3. Les Misérables (1958)


Les Misérables é um 1958 adaptação cinematográfica do romance escrito por Victor Hugo em 1862. Escrito por Michel Audiard e René Barjavel, o filme foi dirigido por Jean-Paul Le Chanois e estrelado por Jean Gabin como Jean Valjean.

a) Adaptação

O histórico do bispo é resumido brevemente, em vez de detalhado como no romance. Javert é um menino, filho de um guarda da prisão de Toulon, quando vê Valjean como um condenado. Javert chega para prender Jean Valjean quando ele está na casa de Thénardier com a intenção de levar Cosette com ele. Irmã Simplice admite Valjean e Cosette no convento em vez do Padre Fauchevent. Thénardier, disfarçado, encontra Marius e prova-lhe com a ajuda de recortes de jornais que está completamente enganado sobre o passado criminoso de Valjean.

b) Elenco

• Jean Gabin como Jean Valjean / Champmathieu
• Bernard Blier como Javert (pai e filho)
• Danièle Delorme como Fantine
• Bourvil como Thénardier
• Elfriede Florin como La Thénardier
• Giani Esposito como Marius Pontmercy
• Béatrice Altariba como Cosette
• Martine Havet como a jovem Cosette
• Silvia Monfort como Éponine
• Mireille Daix como a jovem Éponine
• Jimmy Urbain como Gavroche
• Serge Reggiani como Enjolras
• Fernand Ledoux como Monsenhor Myriel
• Isabelle Lobbé como Azelma
• Jean d'Yd como Mabeuf
• Jean Murat como Coronel Georges Pontmercy
• Lucien Baroux como Monsieur Gillenormand
• Suzanne Nivette como Mademoiselle Gillenormand
• Jacques Harden como Courfeyrac
• Marc Eyraud como Grantaire
• Werner Dissel como Brevet
• Beyert como Bahorel
• Hans-Ulrich Laufer como Combeferre
• Gérard Darrieu como Feuilly
• Pierre Tabard como Prouvaire
• Henri Guégan como Laigle
• Julienne Paroli como Madame Magloire
• Laure Paillette como Toussaint
• Madeleine Barbulée como Soeur Simplice
• Christian Fourcade como Petit Gervais
• Bernard Musson como Bamatabois
• René Fleur como o cardeal
• Ardisson as A gendarme
• Jean Ozenne como o prefeito de Montreuil
• Gerhard Bienert como o presidente do tribunal
• Harry Hindemith como Un bagnard

c) Produção

Chamada de "a versão cinematográfica mais memorável", foi filmada na Alemanha Oriental e foi abertamente política. Das muitas adaptações cinematográficas do romance, este foi considerado "o mais popular entre o público na França do pós-guerra". Uma mudança de enredo digna de nota foi feita para acomodar o fato de que os atores que desempenhavam os papéis de Valjean e Javert tinham idades distantes, ao invés de quase contemporâneos como no romance. Em vez de Javert reconhecer Valjean como um condenado que muitas vezes guardou anos antes, ele se lembra de como, quando era apenas um menino, seu pai, guarda da prisão, apontou esse homem como "o pior tipo de prisioneiro, que tentou escapar quatro vezes".

d) Liberação

O filme foi um grande sucesso na França, o segundo mais popular de 1958.
O New York Times o descreveu como um dos primeiros "blockbusters" franceses que apareceu em resposta a longas-metragens como A Volta ao Mundo em 80 Dias e Os Dez Mandamentos. Dizia que era "uma recontagem pesada de quatro horas do épico frequentemente filmado de Victor Hugo. Nenhuma página é pulada. Muito literário, ele tem a graça salvadora da representação verdadeiramente heróica de Jean Valjean por Jean Gabin, além de algumas comoventes cenas nas barricadas.


"Era um "papel quintessencial de Gabin ... o de um solitário, um estranho, geralmente um membro das ordens inferiores que pode flertar com amor e felicidade, mas sabe que não são para ele".
O filme não estreou em Nova York até julho de 1989, quando coincidiu com a celebração do bicentenário da Revolução Francesa.

e) Filmes

Les misérables 1958



Les Misérables - La Racaille et les Honnêtes Gens (1958)



4. Les Misérables (1998)


Les Misérables é um filme estadunidense de 1998, sexta adaptação para o cinema do romance Os Miseráveis, de Victor Hugo, 1862, dirigido por Bille August. Estrelado por Liam Neeson, Geoffrey Rush, Uma Thurman e Claire Danes.
Como no romance original, a trama segue a vida de Jean Valjean (Liam Neeson), um ex-condenado (em liberdade condicional após 19 anos de trabalho forçado, por roubar comida) perseguido pelo Inspetor Javert (Geoffrey Rush). Foi filmado em Barrandov Studios em Praga.

a) Sinopse

O filme conta a vida de Jean Valjean (Liam Neeson), um homem preso por roubar um pão. Posto em liberdade condicional após cumprir 19 anos, Valjean é recebido na casa de um Bispo. Ainda assim, à noite Valjean rouba a prataria do Bispo; mas quando os policiais lhe perguntam sobre o roubo, ele confirma que deu a prata a Valjean e ainda lhe dá dois castiçais. Depois de 9 anos, Valjean se torna um rico industrial e prefeito. Sua paz acaba quando Javert (Geoffrey Rush), um inspetor de polícia, que anteriormente foi um guarda da prisão onde Valjean estava, o reconhece e tem quase certeza de que o prefeito é um ex-prisioneiro que nunca se apresentou para cumprir as exigências da liberdade condicional. Enquanto isso, Fantine (Uma Thurman), uma das empregadas da fábrica de Valjean é despedida por ser mãe solteira e se vê obrigada a se prostituir para enviar dinheiro para as pessoas que cuidavam de sua filha.


Quando Javert a prende, seu ex-patrão usa sua autoridade para libertá-la e a recebe em sua casa, pois ela está doente. Javert não consegue provar a verdadeira identidade do prefeito, porque outro homem, Carnot, é confundido com ele e está prestes a ser preso. Valjean vai ao tribunal e revela sua identidade. Quando ele visita Fantine, descobre que ela está gravemente doente e, sentindo que ela pode morrer promete criar a sua filha Cosette. Quando Fantine morre, Valjean escapa de Javert, resgata Cosette dos Thénardiers e foge com ela para Paris, sendo perseguido por Javert através dos anos. Até que Javert consegue pega-lo, Valjean pensa que Javert vai o mata lo, mas ele acabe se matando. E assim Jean volta a sua "filha", Cossette. E vive sua vida.

b) Elenco

• Liam Neeson .... Jean Valjean
• Geoffrey Rush .... Javert
• Uma Thurman .... Fantine
• Claire Danes .... Cosette
• Hans Matheson .... Marius Pontmercy
• Peter Vaughan .... Bispo
• Reine Brynolfsson .... Capitão Beauvais
• Christopher Adamson .... Bertin
• Tim Barlow .... Lafitte
• Timothy Bateson .... Banqueiro
• John McGlynn .... Carnot
• Mimi Newman .... Cosette (8 anos)
• Shane Hervey .... Gavroche
• Lennie James .... Enjolras
• Jon Kenny .... Monsieur Thénardier
• Gillian Hanna .... Madame Thénardier
• Sylvie Koblizkov .... Éponine

c) Filmes

Les Miserables Trailer (1998)



Les Miserables - Opening Scene (1998)



5. Les Misérables (2012)


Les Misérables é um filme britano-estadunidense de 2012, do gênero drama musical, dirigido por Tom Hooper para a Working Title Films, com roteiro de William Nicholson adaptado do musical Les Misérables (musical), de Alain Boublil, Claude-Michel Schönberg e Herbert Kretzmer, por sua vez baseado no romance Os Miseráveis, de Victor Hugo.
Estrelado por Hugh Jackman, Russel Crowe, Anne Hathaway, Eddie Redmayne, Amanda Seyfried, Sacha Baron Cohen e Helena Bonham Carter, Os Miseráveis estreou nos Estados Unidos em 25 de dezembro de 2012, em Portugal, em 3 de janeiro de 2013, e no Brasil, em 1.º de fevereiro de 2013.
Trata-se de uma celebração pelos 25 anos do musical. A produção teve início oficialmente em meados de março de 2011, e as gravações, um ano depois.

a) Enredo

A história se passa em plena Revolução de Julho do século 19 entre duas grandes batalhas: a de Waterloo e a insurreição republicana de junho de 1832. Cumprida a pena, Jean é posto em liberdade condicional com a obrigatoriedade de se apresentar regularmente, correndo o risco de passar o resto da vida preso se não o fizer. Como ex-presidiário Valjean sente-se discriminado por todos, contudo tenta recomeçar a sua vida e redimir-se do tortuoso passado. Considerando-se livre, Jean Valjean quebra a condicional resultando na fuga contínua pela perseguição do inspetor Javert (Russell Crowe).
Enquanto isso, do outro lado da França, Fantine (Anne Hathaway) enfrenta uma grande luta com sua filha Cosette. Ao viajar para o interior do país, a mãe deixa a menina com o casal Thénardier (Helena Bonham Carter e Sacha Baron Cohen), que maltratam a criança, a fazem de escrava e roubam seu dinheiro. Enquanto isso Fantine arranja emprego no interior, manda dinheiro para sua filha, enquanto o casal cobra cada vez mais e mais. Um dia um funcionário da fábrica descobre que a mesma tem uma filha ilegítima, e a expulsam do emprego em que trabalha. Desolada, e sem jeito de conseguir dinheiro, ela vende os invejados cabelos e dentes, e com mais cobrança dos vilões, ela se prostitui, porém está com Tuberculose. Por fatos ocorridos no passado, Jean Valjean conhece a doente Fantine e lhe faz a promessa de cuidar de sua filha.

b) Elenco

• Hugh Jackman como Jean Valjean, um homem marcado pela injustiça social, que ao voltar da sua prisão de dezenove anos, reergue-se e fica rico. O destino dele está cruzado ao de Fantine quando o mesmo cuida da sua filha Cosette.
• Russell Crowe, como o Inspetor Javert, fanático pela justiça persegue Jean Valjean para recapturá-lo e fazê-lo cumprir sua pena.
• Anne Hathaway como Fantine, vítima da injustiça. Foi abandonada pelo seu namorado enquanto estava grávida de Cosette. Sem ter para onde correr, volta ao interior de onde nasceu, deixando a filha sob cuidados dos Thénardier. Depois de demitida do trabalho, vende os cabelos, os dentes e se prostitui. Morre de tuberculose e é jogada em uma cova de indigente. O mesmo papel foi cotado para as atrizes Rebecca Hall e Amy Adams, porém ficou com Hathaway.
• Daniel Huttlestone como Gravoche, menino irmão de Eponine. Rejeitado pelos pais, acaba tendo que viver na rua. Morre tentando pegar munição para Marius.
• Amanda Seyfried como Cosette, filha de Fantine. Tinha belos olhos azuis, porém de tanto chorar com o seu sofrimento, os mesmos perderam a cor e se tornaram verdes. É cuidada durante a adolescência por Valjean.
• Helena Bonham Carter como Madame Thénardier, a "Vilã" da história, que desde cedo maltrata Cosette, a tornando sua escrava e roubando seu dinheiro. Porém, um dia vai a falência.
• Sacha Baron Cohen como Monsieur Thénardier, tomado muitas vezes como o "Vilão" da história, não tem amor a mais ninguém exceto a sua família.
• Eddie Redmayne como Marius, jovem revolucionário que busca o amor e vira amigo de Éponine.
• Samantha Barks como Eponine, filha sofrida do casal Thénardier que é secretamente apaixonada por Marius. Taylor Swift, Evan Rachel Wood, Lea Michele e Scarlett Johanson foram cotadas para o papel.
• Dee Bradley Baker como Person Inn
• Isabelle Allen como jovem Cosette, filha de Fantine, maltratada no começo da sua vida. Foi adotada por Valjean, que antes da morte da sua mãe, havia sido escrava doméstica enquanto morava na casa da Madame Thénardier e Monsieur Thénardier.
• Aaron Tveit como o revolucionário Enjolras, melhor amigo de Marius e líder dos Les Amis de L'ABC

c) Produção

A cantora Taylor Swift do filme "Idas e Vindas do Amor" foi dispensada do elenco. Ela viveria Eponine. Em seu lugar, foi contratada a inglesa Samantha Barks, que ficou em terceiro lugar no reality show musical 'I'd Do Anything'.


Tom Hooper anteriormente tinha sido convidado para dirigir Iron Man 3, mas recusou o pedido, e para dirigir Les Misérables. Paul Bettany tinha sido até mesmo citado para interpretar o inspetor Javert, mas o estúdio decidiu contratar Russell Crowe para fazer o inspetor. Amy Adams e Rebecca Hall também foram apontadas como candidata para o papel de Fantine, que acabou com Anne Hathaway. Emma Watson, Hayden Panettiere, Miranda Cosgrove e Lucy Hale estiveram sondadas para os papéis das jovens Eponine e Cosette, mas não foram adiante.

d) Lançamento

A primeira apresentação do longa aconteceu no dia 23 de novembro de 2012 na cidade de Nova York. O filme foi ovacionado pela crítica especializada e aplaudido de pé por todos presentes na sala do cinema. No dia seguinte, o filme foi apresentado também na cidade de Los Angeles no estado da California e novamente, recebeu boas opiniões críticas.

e) Opinião crítica

A Universal Pictures proibiu qualquer crítica ao longa até a aproximação da estreia do filme, porém alguns críticos descreveram como: "Um musical desde Chicago, nunca chegou tão próximo a conquistar o Oscar de melhor filme. Performances como dos atores Hugh Jackman e Anne Hathaway foram aclamadas, a última descrita como: "Ninguém jamais interpretou Fantine como Hathaway".

f) Prêmios e nomeações

• Vencedor do Oscar de 2013
o Melhor Filme
o Melhor Atriz Coadjuvante Anne Hathaway
o Melhor Ator Principal Hugh Jackman
o Melhor Mixagem de Som Venceu
o Melhor Maquiagem Venceu
• Vencedor do Hollywood Film Festival
o Melhor Produção
o Melhor Trailer
o Melhor Atriz Revelação Samantha Barks

g) Filmes

Les Miserables - Trailer Official International Trailer [HD] (2012)



Les Misérables - Master of the House (2012)








sexta-feira, 7 de maio de 2021

Charles Dickens





Charles John Huffam Dickens (Landport, 7 de fevereiro de 1812 – Higham, 9 de junho de 1870) foi o mais popular dos romancistas ingleses da era vitoriana. No início de sua atividade literária também adotou o apelido Boz. A fama dos seus romances e contos, tanto durante a sua vida como depois, até aos dias de hoje, só aumentou. Apesar de os seus romances não serem considerados, pelos parâmetros atuais, muito realistas, Dickens contribuiu em grande parte para a introdução da crítica social na literatura de ficção inglesa.
Entre os seus maiores clássicos estão David Copperfield e Oliver Twist.


1. Infância e juventude

Dickens nasceu numa sexta-feira na cidade de Portsmouth (condado de Hampshire, Inglaterra), filho de John Dickens, funcionário perdulário da Armada, e de esposa Elizabeth Barrow. Quando fez cinco anos, a família mudou-se para Chatham, no condado de Kent.
Descrever-se-ia a si mesmo, mais tarde, como uma criança "muito pequena e não muito mimada". Educado pela sua mãe, que lhe ensinava diariamente inglês e latim, passava muito do seu tempo a ler infindavelmente — e, com especial devoção as novelas picarescas de Tobias Smollett e Henry Fielding. Entre os livros da sua infância encontravam-se também obras de Daniel Defoe, Goldsmith, bem como o "Dom Quixote", "Gil Blas" e "As Mil e uma noites". A sua memória fotográfica serviria, mais tarde, para conceber as suas personagens e enredos ficcionais, baseando-se muito nas pessoas e acontecimentos que foram marcando a sua.

Charles Dickens em 1842

A sua família era remediada em termos económicos, o que lhe permitiu frequentar uma escola particular durante três anos. A situação piorou, contudo, quando o seu pai foi preso por dívidas, depois de gastar os recursos da família no afã de manter uma posição social periclitante. Com dez anos de idade, a família mudou-se para o bairro popular de Camden Town em Londres, onde ocupavam quartos baratos e, para fazer face aos gastos, empenharam os talheres de prata e venderam a biblioteca familiar que tinha feito as delícias do jovem rapaz. Com doze anos, Dickens já tinha a idade considerada necessária para trabalhar na empresa Warren’s onde se produzia graxa para os sapatos com betume, junto à actual Estação ferroviária de Charing Cross. O seu trabalho consistia em colar rótulos nos frascos de graxa, ganhando, por isso, seis xelins por semana. Com o dinheiro, sustentava a família, encarcerada na prisão para devedores, em Moure onde ia dormir.
Alguns anos depois, a situação financeira da família melhorou consideravelmente, graças a uma herança recebida pelo seu pai. A sua família deixou a prisão, mas a mãe não o retirou logo da fábrica, que pertencia a um amigo. Dickens jamais perdoaria à mãe por essa injustiça. O tema das más condições de trabalho da classe operária inglesa


2. Início de carreira

Em agosto Dickens começou a trabalhar num escritório, emprego que lhe poderia valer, mais tarde, a posição de advogado. Não gostou, no entanto, do trabalho nos tribunais e, depois de aprender taquigrafia, foi, por um breve período, estenógrafo do tribunal. Com dezoito anos de idade, começou outro período de leituras intensas tendo-se inscrito na biblioteca do British Museum. Por esta altura, apaixona-se pela filha de um banqueiro, Maria Beadnell. Os pais da menina desaprovaram, contudo, o idílio amoroso devido ao passado dos pais de Dickens. A própria Maria tornar-se-á indiferente a Charles depois de uma viagem "educativa" à França. Dickens levará um ano a superar este desgosto amoroso.


Tornou-se, depois, jornalista, começando como cronista judicial e, depois, fazendo relatos dos debates parlamentares e cobrindo as campanhas eleitorais pela Grã-Bretanha fora, de diligência. Os seus Sketches by Boz ("Esboços de Boz" — Boz era a alcunha do seu irmão mais novo que não era capaz de pronunciar devidamente "Moses" — Moisés, em inglês) são fruto desta época e são constituídos por pequenas peças jornalísticas em forma de retratos de costumes, originalmente escritas para o "Morning Chronicle" em 1833. Ao longo da sua carreira, Dickens continuou, durante muito tempo, a escrever para jornais.
Com pouco mais de vinte anos, o seu The Pickwick Papers (Os Documentos Póstumos do Clube Pickwick) estabeleceu o seu nome como escritor. A ideia inicial desta obra era que Dickens escrevesse comentários a ilustrações desportivas. De 1831 a 1834, a New Sporting Magazine comprovou o sucesso desta receita editorial com a sua série "Jorrock´s Jaunts and Jollities" sobre um comerciante cockney que quer a todo o custo ser reconhecido como o bom caçador que não era. Querendo seguir a mesma ideia, Robert Seymour propôs aos editores Chapman and Hall criar uma série semelhante sobre um tal de "Clube Nimrod" (Nimrod é uma personagem bíblica descrita como sendo um grande caçador) onde também se troçaria dos caçadores inexperientes, mas cheios de si mesmos. Procuraram-se escritores para "complementar" as imagens com textos.

The Pickwick Papers

A terceira opção, perante a recusa dos dois primeiros, era Dickens, que escrevera os seus Esboços para a mesma editora. Dickens rapidamente tomou conta do projecto e rejeitou a ideia de um clube de caçadores — a ideia não lhe agradava. Criou, pelo contrário, um clube de observadores de curiosidades, o que afastou definitivamente o ilustrador que tivera a ideia inicial, Seymour, que viria a suicidar-se na sequência destes acontecimentos. Procurou-se outro ilustrador. É curioso que tenha sido rejeitado um tal de William Makepeace Thackeray que se tornaria outro vulto de importância no romance vitoriano (geralmente colocado logo a seguir a Dickens, na opinião de muitos estudiosos da literatura inglesa — ou mesmo superior a Dickens, na opinião de outros). O novo ilustrador, conhecido pela alcunha de Phiz, deu conta do recado.


3. A fama

Ilustração da primeira edição de "A Christmas Carol"

A 2 de Abril de 1836 (três dias depois da publicação do primeiro fascículo de "Pickwick"), casou-se com Catherine Hogarth, com quem teve dez filhos. A recepção do público a Pickwick não foi calorosa desde o início. Só quando aparece a personagem de Sam Weller, o criado de Pickwick e que acompanha as aventuras do seu amo ao jeito de um Sancho Pança ao lado de Dom Quixote, é que as vendas sobem de 400 exemplares para 40 000.
Em 1838, em decorrência do sucesso de Pickwick, propõe a publicação de Oliver Twist onde, pela primeira vez, apontava para os males sociais da era vitoriana. O romance, divulgado em folhetins semanais, terá também o seu ilustrador: Cruikshank.

Catherine Dickens

Em 1842 viajou com a sua esposa para os Estados Unidos. A viagem foi descrita, depois, no curto relato de literatura de viagens American Notes, existindo também influências da mesma em alguns episódios de Martin Chuzzlewit. Ao entusiasmo com que foi recebido, de início, nos Estados Unidos, seguiu-se uma estadia menos calorosa, devido às críticas que teceu à política editorial deste país, acusando os editores de plágio em relação à literatura produzida na Grã-Bretanha.
Em 1843, publicava o seu mais famoso livro de Natal, "A Christmas Carol" ("Canção de Natal"), ao qual se seguiriam outros, com a mesma temática, como "The Chimes" (1844), que escreveu em Génova na sua primeira grande viagem ao estrangeiro (se descontarmos a breve incursão aos Estados Unidos). Em 1845, "The Cricket on the Hearth" ("O Grilo da lareira") torna-se também um dos seus maiores sucessos natalícios.


Em 1848, publicava "Dombey and Son", escrito principalmente no estrangeiro, onde descreve o meio dos transportes ferroviários — outro tema estreitamente relacionado com a Revolução Industrial que conformava a sociedade vitoriana.
Em 1849 publicou aquele que viria a ser o mais popular dos seus romances, David Copperfield, onde se inspirava, em grande parte, na sua própria vida. As amizades literárias de Dickens incluíam, em 1854, Thomas Carlyle, a quem dedicará o seu romance "Tempos Difíceis".
A revista semanal Household Words, onde viria a publicar, em folhetins, alguns dos seus romances, foi fundada também por ele, em 1850, e chegou a vender 40 mil cópias por semana. A revista seria reformulada em 1859, mudando de nome para "All the year round".

David Copperfield

Os livros de Dickens tornaram-se extremamente populares na época e eram lidos com grande expectativa por um público muito fiel à sua escrita. O seu sucesso permitiu-lhe comprar Gad’s Hill Place, perto de Chatham, em 1856. Esta casa fazia parte do imaginário de Dickens, desde que por ela tinha passado, em criança — sonhando que um dia poderia lá viver. O local tinha ainda um significado especial porque algumas cenas do Henrique V de Shakespeare localizam-se nesta mesma área. Essa referência literária agradava de sobremodo a Dickens.


4. Últimos anos de vida

Após 22 anos de casamento, o escritor teve um caso com uma jovem atriz e decidiu que estava cansado da sua esposa, que havia gerado e criado os seus dez filhos.
Dickens separou-se da sua mulher em 1858. O divórcio era um ato altamente reprovável durante a era vitoriana, principalmente para alguém com a notoriedade dele. Continuou, contudo, a pagar-lhe casa e sustento durante os restantes anos em que ela viveu. Ainda que tivessem sido felizes no seu início de vida conjugal, Catherine parecia não partilhar a energia de viver sem limites de Dickens.
[
Oliver Twist

O trabalho de cuidar dos dez filhos do casal, aliado à pressão resultante de ser a esposa e dona de casa de um romancista mundialmente reconhecido não ajudava. A sua irmã, Georgina, tinha mudado para casa de Dickens, para ajudar Catherine no seu trabalho doméstico — há, contudo, rumores de que teve um caso amoroso com o cunhado. Georgina manteve-se com Dickens após a separação para cuidar dos filhos do casal. Podemos encontrar um indício da insatisfação marital de Charles num encontro que este teve em 1855 com Maria Beadnell, o seu primeiro amor.
Dickens tentou internar a mulher num manicómio, mas o médico Thomas Harrington Tuke que trabalhava como superintendente no Sanatório Manor House, em Londres, entre 1849 e 1888 recusou. Mais tarde, o romancista chegou a referir-se a Tuke como um “ser miserável” e um “jumento médico”.
[
Um Conto e Natal

A 9 de Junho de 1865, estando de regresso de França, onde fora visitar Ellen Ternan, Dickens viu-se envolvido no acidente ferroviário de Staplehurst, em que as seis primeiras carruagens do comboio caíram de uma ponte em reparação. A única carruagem de primeira classe que se manteve na linha foi, por coincidência, aquela onde seguia Dickens. O escritor mostrou-se ativo a cuidar dos feridos e moribundos antes de chegarem os esforços de salvamento. Quando se preparava para abandonar o lugar trágico lembrou-se, ainda a tempo, de que tinha deixado dentro do comboio o manuscrito inacabado do seu romance Our Mutual Friend (O nosso amigo comum) e voltou à carruagem para o buscar.
Já que se tornaria público que seguia viagem com Ellen Ternan e a sua mãe, a opinião púbica rapidamente a apontaria como a causa da separação de Catherine. Ellen foi, para todos os efeitos, a mulher que acompanhou Dickens até ao final dos seus dias, apesar de a união nunca ter sido reconhecida oficialmente.

Ellen Lawless Ternan

Ainda que tivesse escapado ileso do acidente, nunca chegou a recuperar totalmente do choque. Isso é evidente no ritmo da sua produção que decresce bastante depois deste episódio. Levará algum tempo a completar Our Mutual Friend e a começar a sua obra incompleta, The Mystery of Edwin Drood, onde se notam influências de Wilkie Collins, que fazia parte do círculo de amigos de Dickens e que é considerado um dos pioneiros do romance policial. A partir de 1858, os seus últimos anos de vida serão ocupados principalmente com leituras públicas. Esse género de espectáculos, que consistia apenas em ouvir Dickens a ler as suas suas obras mais conhecidas, tornaram-se incrivelmente populares.

Eastgate House – Casa de Charlers Dickens

Note-se que na altura era comum ler em voz alta em família ou em grupos — a leitura expressiva era muito valorizada. E Dickens, com a sua interpretação apaixonada e a forma como se entregava à narração, não só arrebatava gargalhadas (e, principalmente, lágrimas) das audiências, como se arrebatava a si mesmo, exaurindo as suas forças. O esforço despendido nestes espectáculos é, muitas vezes, apontado como uma das causas da sua morte. Em 1867 foi convidado a voltar aos Estados Unidos para uma digressão das suas leituras.
Morreu de morte cerebral em junho de 1870. Foi sepultado no Poets' Corner ("Esquina dos Poetas"), na Abadia de Westminster. Na sua sepultura está gravado: "Apoiante dos pobres, dos que sofrem e dos oprimidos; e com a sua morte, um dos maiores escritores de Inglaterra desaparecia para o mundo.".


Na década de 1980, a histórica Eastgate House (casa Eastgate), em Rochester, em Kent, foi convertida num museu dedicado a Charles Dickens. Anualmente realiza-se na cidade o Festival Dickens. A casa onde nasceu, em Portsmouth é, também, um museu atualmente.

a) Filhos

Teve dez filhos de Catherine Thompson Hogarth, os nomes remetem quase sempre para referências literárias:

  • Charles Culliford Boz Dickens (6 de janeiro de 1837 – 1896)
  • Mary Angela Dickens (6 de março de 1838 – 1896)
  • Kate Macready Dickens (29 de outubro de 1839 – 1929)
  • Walter Landor Dickens (8 de fevereiro de 1841 – 1861)
  • Francis Jeffrey Dickens (15 de janeiro de 1844 – 1886)
  • Alfred D'Orsay Tennyson Dickens (28 de outubro de 1845 – 1912)
  • Sydney Smith Haldimand Dickens (18 de abril de 1847 – 1872)
  • Henry Carl Potchovesk Dickens Molovei (15 de janeiro de 1849 – 1933)
  • Dora Annie Dickens (16 de agosto de 1850 – 1851)
  • Edward Bulwer Lytton Dickens (13 de março de 1852 – 1902)


5. Obra

a) Contexto social

Quando Dickens começa a publicar os seus romances, tem à sua disposição um público formado pela revolução industrial. Londres tem mais de um milhão e meio de habitantes, devido à explosão demográfica e a um êxodo rural que expulsa os camponeses dos seus terrenos que ficam cercados em "enclosures" dedicadas à pecuária, mais especificamente, à criação de ovinos. A indústria têxtil servirá de emprego para estes espoliados. O trabalho infantil torna-se uma das características mais pungentes da economia inglesa. Em 184], Engels publicará "A situação da classe operária em Inglaterra", onde toda esta situação é analisada. Dickens aflorará estes problemas, é certo, mas conquistará o público burguês porque não se assumirá nunca como um revolucionário. As suas personagens, quando melhoram de vida, devem essa melhoria às circunstâncias e acasos da vida, mais que à sua luta pela justiça social.
Por outro lado, a população anglófona é a mais alfabetizada do mundo. Por isso, Dickens terá um público potencial muito alargado, não só na Grã-Bretanha como além do Atlântico.

b) Características gerais

A escrita de Dickens é caracterizada por um estilo poético.
A maior parte dos principais romances de Dickens foram escritos mensal ou semanalmente, em episódios publicados em jornais como o Household Words e que depois foram reunidos nas obras completas, tal como as conhecemos actualmente. A publicação em episódios separados tornava as histórias mais acessíveis a um público mais extenso que ia aumentando à medida que as situações por resolver se sucediam, episódio por episódio, criando expectativa entre o público. O talento de Dickens residia também nesta sua capacidade em aliar uma narrativa episódica a um romance coerente na sua totalidade. Os episódios mensais eram acompanhados de ilustrações de vários artistas.
A sua escrita manteve sempre um alto nível de qualidade, sem se distanciar de um estilo tipicamente "dickensiano" que não era incompatível com a experimentação de novos temas e géneros. A reacção do público a estas experiências era irregular — e mesmo as críticas e a percepção pública da sua obra variou ao longo do tempo. A publicação dos seus textos em periódicos permitia-lhe auscultar as reacções do público à sua escrita, de forma que podia mudar o rumo à narrativa, de acordo com o que o público esperava ou não. Um bom exemplo encontra-se em Martin Chuzzlewit, onde foram incluídos episódios passados na América, em resposta ao decréscimo nas vendas dos primeiros capítulos. Em Our Mutual Friend, a inclusão da personagem Riah, retratando positivamente uma personagem judia, resultou das críticas à personagem de Fagin no seu Oliver Twist.
Os romances de Dickens eram, entre outros aspectos, obras de crítica social. Nas suas narrativas são tecidos comentários ferozes a uma sociedade que permitia a pobreza extrema, as más condições de vida e de trabalho e a estratificação social abrupta da era vitoriana, a par de uma empatia solidária pelo homem comum e uma atitude céptica em relação à alta sociedade.
A escrita de Dickens é hoje considerada excessivamente sentimentalista e melodramática: a morte de personagens de quem gostamos particularmente, como a pequena Nell em The Old Curiosity Shop ("Loja de antiguidades"), ou a costureirinha do "Conto de Duas Cidades", são exemplo disso. Mesmo quando a história tem características marcadamente pungentes para as principais personagens, como em Bleak House ("Casa Desolada"), Dickens tentava equilibrar o conjunto com personagens e situações satíricas e que permitiam sorrisos e gargalhadas no meio das lágrimas derramadas pela triste sorte das outras personagens. Outra crítica recorrente ao estilo de Dickens refere-se à inverosimilhança do enredo que se sustenta quase sempre em coincidências muito pouco prováveis. Se é assim, de facto, a verdade é que Dickens procurava, acima de tudo, o entretenimento e não o realismo. Pretendia, de certa forma, recuperar o espírito do romance gótico e das novelas picarescas que lia na sua juventude. Efectivamente, quando escrevia um romance mais realista, a recepção do público mostrava-se bastante mais fria e indiferente. Além do mais, não era a sua própria história algo inverosímil, com as suas constantes reviravoltas (uma infância feliz seguida de pobreza, depois, uma herança inesperada e, finalmente, fama internacional e reconhecimento público)? Afinal, estão constantemente a acontecer histórias inverosíméis no mundo…
É normal que um escritor incorpore elementos autobiográficos nas suas narrativas ficcionais. O caso torna-se particularmente interessante em Dickens, até porque este sempre teve a preocupação de velar aquilo que considerava vergonhoso no seu passado. As muitas cenas de tribunal que aparecem em "A Casa sombria" são bem reveladoras do seu passado como cronista judicial. Em "A Pequena Dorrit" volta a aparecer o tema da prisão para devedores — onde Marshalsea, onde a sua família esteve retida, também serve de espaço narrativo. Pensa-se também que a pequena Nell de a Loja de Antiguidades poderá representar a sua cunhada. O pai de Nicholas Nickleby e Wilkins Micawber são directamente inspirados no seu pai. Pip, a personagem principal de Grandes Esperanças, com a sua mistura de pedantismo e remorsos, é semelhante ao próprio Dickens. Ele era um péssimo escritor antes e depois virou um ótimo.

c) Temas e personagens

Os temas mais recorrentes em Dickens correspondem a uma vontade de reformar a sociedade exploradora que pertencia e que se concretizava nos asilos para órfãos, nos locais de trabalho degradados, nas escolas que mais se assemelhavam a locais de tortura e no ambiente sórdido das prisões.
Ao comparar os órfãos a acções da bolsa, pessoas a barcos rebocadores, ou convidados para jantar a peças de mobília, Dickens conseguia resumir numa imagem o que descrições mais complexas não conseguiriam transmitir. Satirizou o pedantismo da aristocracia britânica com especial sarcasmo, usando imagens semelhantes a estas.
As próprias personagens estão entre as mais memoráveis da literatura em inglês. Ebenezer Scrooge, Fagin, Mrs. Gamp, Wilkins Micawber, Pecksniff, Miss Havisham, Wackford Squeers, entre outros, são tão conhecidos do público anglófono que quase se assumem como identidades próprias (Scrooge, por exemplo, deu origem ao Tio Patinhas). As excentricidades destas personagens não monopolizam, contudo, a narrativa. Algumas destas personagens são grotescas, seguindo o estilo do romance gótico do século XVIII, que Dickens também apreciava, ainda que, na altura, o gênero já fosse um pouco ridicularizado (por exemplo, através de Northanger Abbey, de Jane Austen, que parodia este tipo de romance). Pode-se considerar, todavia, como a mais onipresente das personagens de Dickens, a própria cidade de Londres, revelando aspectos que só poderiam ser descritos por quem conhecesse profundamente cada rua da cidade.
A delinquência provocada geralmente por pessoas órfãs e pela exploração desenfreada do ser humano por outros seres humanos é o ingrediente base de Oliver Twist e "Nicholas Nickleby", onde faz também a denúncia das condições de muitos estabelecimentos de ensino. "Casa Sombria" será um libelo contra a corrupção e a ineficiência do sistema jurídico inglês, tal como em "A pequena Dorrit". Menos conhecido, este romance é uma obra prima de sátira acerba, recheada de enganos, além de contar a típica história do pobre que enriquece.
Aventurou-se também pelo romance histórico, de que é exemplo "Barnaby Rudge", de 1841 — a obra é, contudo, dominada pela ficção e apenas em alguns pontos serve o desígnio do que se costuma chamar "romance histórico". De facto, nenhuma das personagens tiveram existência real, excetuando Lord Gordon. O seu "Conto de duas cidades", sobre a Revolução Francesa, de cariz diverso do resto da sua obra é, contudo, um dos mais celebrados romances históricos ingleses.
Dickens era fascinado pelo teatro, que considerava como uma forma de refúgio psicológico perante as adversidades da vida. Em Nicholas Nickleby aparecem personagens ligadas ao meio teatral. A mulher que o acompanhou nos últimos anos de vida era atriz, e ele mesmo teve uma carreira ligada ao palco, durante as suas leituras públicas dos seus próprios romances, que o levou a percorrer a Grã-Bretanha e os Estados Unidos em digressões muito concorridas. Sua escrita, ao conjugar realidade com fantasia, a crítica social com o melodrama, e a reflexão sobre o destino humano com o humor. Outros, porém, consideram David Copperfield o seu melhor romance — é também aquele onde se encontram mais elementos autobiográficos.


6. Legado

A sua popularidade pouco decresceu desde a sua morte. Continua a ser um dos autores ingleses mais lidos e apreciados. Pelo menos cerca de 180 filmes e adaptações para televisão das suas obras documentam ainda o seu sucesso entre o público actual. Já durante a sua vida se tinham adaptado algumas das suas obras para o palco. Em 1913 já os produtores cinematográficos se lançavam na produção de um filme mudo denominado The Pickwick Papers. As suas personagens eram de tal forma sugestivas que pareciam ganhar vida própria, tornando-se, mesmo, proverbiais. A língua inglesa ganhou alguns neologismos à sua conta. "Gamp" é um termo usado na gíria para "guarda-chuva", devido a uma personagem — a senhora Gamp. "Pickwickiano", "Pecksniffiano", etc., podem ser usadas para se referir ao mesmo tipo de pessoa que as personagens referidas.
O seu conto "Canção de Natal" é talvez a sua história mais conhecida. As adaptações são inúmeras, para quase todos os gêneros de comunicação: cinema, banda desenhada, televisão, teatro, outras adaptações literárias, etc., criam um fenómeno de popularidade que transcende a obra original. Segundo alguns, esta história, patética, moralista e bem-humorada, resume o verdadeiro significado do Natal, eclipsando todas as outras histórias de Dickens sobre o tema.
Numa altura em que o Império Britânico era a maior potência política e económica do mundo, Dickens conseguiu apontar para a vida dos esquecidos e desfavorecidos, mesmo no coração do império. Na sua breve carreira de jornalista já tinha batalhado pelo saneamento básico e pelas condições de trabalho, mas foram, claramente, as suas obras ficcionais que mais despertaram a opinião pública para estes problemas. À conta de um contexto literário bem-humorado e de vendas avultadas, denunciava a vida agreste dos pobres e satirizava os indivíduos que permitiam que tais abusos continuassem e conseguia mover opiniões. Crê-se que a sua influência foi importante para o fecho das prisões de Marshalsea e da Prisão de Fleet.
Dickens terá tido, talvez, a esperança de ver nos seus 10 filhos o início de uma dinastia literária, pelo facto de todos terem nomes que remetem para a história da literatura inglesa. Seria, efectivamente, difícil aproximar-se sequer do sucesso do seu pai. Alguns parecem ter herdado do pai de Dickens a tendência para esbanjar o dinheiro. Alguns escreveram as suas memórias, centradas, claro está, na figura do pai, além de organizarem a sua correspondência de forma a poder ser publicada. Apenas a sua bisneta, Monica Dickens, seguiria as suas pegadas, e dedicar-se-ia à escrita de romances.
A própria era vitoriana pode-se designar de era dickensiana, se pensarmos na forma como foi perenemente descrita por este escritor. Depois da sua morte em 1870 a literatura inglesa tornou-se muito mais realista, talvez em reacção à tendência de Dickens para o picaresco e o ridículo. Outros romancistas da era vitoriana que o seguiram, como Samuel Butler, Thomas Hardy ou George Gissing demonstram-se claramente influenciados por Dickens, ainda que a sua escrita seja mais sóbria e menos melodramática.
Dickens continua, contudo, a ser um dos mais geniais criadores da literatura mundial de todos os tempos, sendo dificilmente superado na popularidade e acessibilidade da sua escrita.
No cinema português podemos contar com a adaptação do seu "Hard Times" por João Botelho (no filme "Tempos Difíceis").
Encontra-se colaboração da sua autoria, publicada postumamente na revista A Leitura (1894–1896).



7. Obras

a) Romances principais

  • The Pickwick Papers ("As aventuras do Sr. Pickwik") (1836)
  • Oliver Twist (1837)
  • Nicholas Nickleby (1838–1839)
  • The Old Curiosity Shop ("Loja de Antiguidades") (1840–1841)
  • Barnaby Rudge (1841)
  • Os Livros de Natal:
      o A Christmas Carol ("Canção de Natal" ou "Um cântico de Natal") (1843)
      o The Chimes (1844)
      o The Cricket on the Hearth (1845)
      o The Battle of Life (1846)
      o The Haunted Man and the Ghost's Bargain (1848)
  • Dombey and Son (1846–1848)
  • David Copperfield (1849–1850)
  • Bleak House ("A Casa Abandonada", "Casa desolada" ou "Casa sombria") — (1852–1853)
  • Hard Times ("Tempos Difíceis") (1854)
  • Little Dorrit ("A Pequena Dorrit") — (1855–1857)
  • A Tale of Two Cities ("Um conto de duas cidades") (1859)
  • Great Expectations ("Grandes Esperanças") — (1860–1861)
  • Our Mutual Friend (1864–1865)
  • The Mystery of Edwin Drood (inacabado) (1870)

b) Contos

  • "A Christmas Carol"
  • "A Message from the Sea"
  • "Doctor Marigold"
  • "George Silverman’s Explanation"
  • "Going into Society"
  • "Holiday Romance"
  • "Hunted Down"
  • "Mrs. Lirriper’s Legacy"
  • "Mrs. Lirriper’s Lodgings"
  • "Mugby Junction"
  • "Perils of Certain English Prisoners"
  • "Somebody’s Luggage"
  • "Sunday Under Three Heads"
  • "The Child’s Story"
  • "The Haunted House"
  • "The Haunted Man and the Ghost’s Bargain"
  • "The Holly-Tree"
  • "The Lamplighter"
  • "The Seven Poor Travellers"
  • "The Signalman"
  • "The Trial for Murder"
  • "Tom Tiddler’s Ground"
  • "What Christmas Is As We Grow Older"
  • "Wreck of the Golden Mary"

c) Outros

  • Sketches by Boz (1836)
  • American Notes (1842)
  • A Child's History of England (1851–1853)


8. Filmes


Oliver! - Trailer (1968)



Oliver Twist - Please Sir, I want some more - Scene Clip (2005)



Os Fantasmas de Scrooge - Trailer



David Copperfield - Official Trailer (1935)



David Copperfield – TV Movie Trailer (2000)



Por que Charles Dickens é tão extraordinário e atual?